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domingo, 18 de outubro de 2009
The Time Traveler's Wife
Well, yesterday seing the daily news on Twitter, as usual, I got this movie review by UOL Cinema [a popular web portal in Brazil]. Every friday I glance at the premiéres to find out if there is something that interests me, even though I am a movie buff denatured ...
I saw the story about "The Time Traveler's Wife" [note: POOR name in Portuguese- "I Will Love You Forever". It's almost an insult to the viewer to be treated as part of a public that only knows how to pick movies by name, or books by the cover]. Apart from the infamous name, saw the photos and read the review about the movie. I never give a damn about criticism, because critics are failed filmmakers / wannabes. As I read I learn more about the film and the plot, because that's how I choose a movie to go to the movies. Since I really like subjects like time travels [is always something interesting] and also the cast was something really good -Rachel McAdams, which dispenses praise and also a bit of curiosity to see if Eric Bana is a really good actor, I went to the movies. I endured very patient over an hour waiting for the film session. The public was good, almost crowded room, an SOB behind me kicking my chair and with his nextel on -which by the way, rang at the end of the movie... Anyway, back to the movie -which my friend Karen seems to have hated- I'll say what I think about it ... I spent the whole movie trying to decipher and anticipate the 'puzzle' proposed, after all, when talking about time travel, the subject 'change the past / future' is always there, pardon the pun ... I got, think, successfully knowing what would happen and what was -REALLY-happening. The funny thing was to hear comments [specially from the sob behind me] wondering what was happening there and I understanding very well the film. The first part is devoted to the novel- the ROMANCE I mean, cause I havent' read the book- and the second to the 'drama' about the story. Worked well-run, avoided the cliches, a good movie for all ages [something that the infamous name in Portuguese can spoil]. Anyway, I love watching movies with themes to digest, decipher things to discuss after seeing it, and I think that is what I will do now ...Just to add something I forgot on the Portuguese post: Eric Bana, now, really convinced me. Or maybe -maybe- its Rachel that captivated him. I wouldn't doubt it...
A Esposa do Viajante do Tempo [seria bom se assim fosse]
Bem, ontem ao ver as notícias do dia no twitter, o normal de sempre, recebo as estréias da semana pelo UOL Cinema. Toda 6a feira eu olho pra ver se há algo que me interesse, ainda que eu seja um cinéfilo desnaturado...
E vi a matéria sobre "Te Amarei Para Sempre" [nota: PÉSSIMO nome em Português. Chega a ser uma ofensa para com o expectador ser tratado como parte de um público burro que só sabe escolher filmes pelo nome, ou livros pela capa].
Aparte do nome infame, vi as fotos e li a resenha sobre o filme. Eu nunca dou a mínima para críticas, pois críticos são cineastas fracassados/wannabes. As leio para saber mais sobre o filme e o enredo, porque é assim que eu escolho um filme para ir no Cinema. Li, achei interessante o tema sobre viagens no tempo [sempre me é interessante algo assim], além disso tinha no elenco Rachel McAdams, que dispensa elogios, e também um pingo de curiosidade para averiguar se Eric Bana é realmente um bom ator.
Aguentei muito paciente mais de uma hora de espera pela sessão do filme. Um público até muito bom, sala quase lotada, um fdp atrás de mim chutando a minha cadeira e com o nextel ligado, que justamente no fim, apitou... Bom, voltando ao filme, já que minha amiga Karen parece ter detestado eu digo o que achei...
Passei o filme todo tentando decifrar e antecipar os 'quebra-cabeças' propostos, afinal, quando se fala de viagens no tempo, o assunto 'mudar o passado/futuro' é sempre presente, com o perdão do trocadilho...
Consegui, penso eu, com sucesso saber o que ia acontecer e o que estava -de fato- acontecendo. Engraçado era ouvir comentários [principalmente do fdp atrás de mim] se perguntando o que estava acontecendo, e eu lá entendendo muito bem o filme.
A primeira parte é mais dedicada ao romance, a segunda ao drama. Achei bem conduzido, evitou os clichês, um bom filme para todas as idades [algo que o infame nome em português pode estragar]. Enfim, adoro ver filmes com temas para digerir, coisas a se decifrar, discutir após vê-lo, e acho que é isso que farei agora...
Àqueles que gostam de romance ou drama, eu recomendo. É muito bom.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Brand new
Just testing, yet. But promise posting in english and portuguese. This blog will be just for myself, because I like to writing, but everyone are welcome to read, commenting and suggesting anything. Welcome :]
Apenas testando, ainda. Mas prometo postar em Inglês e Português. Este blog será apenas para mim, porque gosto de escrever, mas todos são bem-vindos para ler, comentar e sugerir qualquer coisa. Bem-vindos :]
domingo, 27 de setembro de 2009
Desmemórias- capítulo 10
Mais um quarteirão a frente, restavam apenas dois ou três. Passaram em frente ao shopping/cinema, e comentando os cartazes dos filmes novamente discordavam um do outro.
Ao atravessarem a avenida conhecida por ‘casas de entretenimento adulto’ [e nem sempre apenas servidas de mulheres], as piadas foram inevitáveis: ela disse-lhe que ele estaria morrendo de vontade de entrar em alguma ‘casa’ daquelas. Ele respondeu com um cinismo, perguntando se não era por ali que ela trabalhava... Ganhou mais um beliscão, dessa vez no outro braço.
Perto do último quarteirão, faltando cinco minutos pra meia-noite, passaram em frente a uma entrada do metrô. Ele olhou, e disse a ela em um tom um tanto pessimista que quando passassem pela mesma entrada no outro lado, já passaria da meia-noite, portanto talvez não desse tempo dela pegá-lo. “Preocupado com isso?”, perguntou ela, sem ouvir resposta. Ele apontava para um café, do outro lado da avenida, como o ‘ponto final’ para a decisão de ambos. Ela concordou.
O nervosismo e a pressa inexplicável fez ambos queimarem a língua. Meia-noite, um, dois, três, quatro, cinco minutos. Se olharam, e sem se falarem andaram mais poucos metrôs. “Pára”, disse ela.
- Então... É o fim da noite, certo? –perguntou a garota-
- Bom... O fim é. Mas qual fim?
Ela pediu a ele que fechasse os olhos, ele o fez prevendo um beijo.
Ouviu a voz dela um pouco a frente dizendo alto “Pode abrir!” E percebeu que ela caminhava em direção ao metrô, prestes a fechar.
Conformado, porém com uma ponta de decepção ele deu poucos passos até a direção dela, que caminhava de costas, olhando a reação dele. Falou alto, contrariando seu próprio gosto, perguntando “Então é assim?!”. Ao longe, a garota exclamou “Ah, esqueci uma coisa!..”
Caminhou novamente na direção dele, deu-lhe um rápido beijo na bochecha, esfregou a pequena mancha de batom e disse “Você ta me devendo um encontro amanhã à tarde, esqueceu?!”. E virou as costas de uma vez, correndo para a escadaria do metrô.
Desmemórias- capítulo 09
Entraram em uma livraria, não sabendo quem deu a idéia primeiro. Lá eles novamente compararam gostos, nem tão diferentes assim, mas que provocava piadas. Dicionários, CDs e DVDs a parte, riram bastante, ainda sem perder a ironia mútua. Estranharam a movimentação da loja diminuir, e perceberam que estava fechando. “22 horas!”, ouviram de um funcionário da loja, e exclamaram ambos com um leve suspiro “Nossa, mas já?..”. “Fazer o que, voltar outro dia”, disse ele sem notar o ‘planejamento’ do próximo encontro, o que ela também não notou...
Andando mais alguns metros ambos decidiram que era uma boa hora para parar e sentar um pouco. E decidiram juntos, sem comentários irônicos. Em frente a um desses bares com cadeiras na calçada sentaram. Assim que veio o garçom, ele pediu uma cerveja, julgando que ela o acompanharia. Ela pediu um açaí.
Tomou a cerveja sozinho, sob os olhares e comentários de desaprovação dela, que dizia que a essa altura não voltaria com ele nem para implorar uma carona, por causa do álcool... Ele então pediu algo calórico pra comer, e ouviu novamente comentários sobre aquilo. “Ta servida?”, perguntou-a quase colocando o lanche em sua boca...
Conversaram mesmo assim, menos irônicos, ele comentando sobre os tempos de faculdades e noites intermináveis de festas, e ela sobre conciliar estágio, faculdade e festas. Em nenhum momento, estranhamente, comentavam sobre relacionamentos.
Quando ambos estavam satisfeitos, a preguiça parecia bater. Talvez o momento mais arriscado da noite também, o comodismo da situação, uma ponta de sono mais por causa do cansaço acumulado da semana, e a vontade de dormir pela manhã inteira no domingo. Ambos pensavam e disfarçavam imaginando que o outro não perceberia. Até reunirem coragem para seguir a caminhada.
O relógio marcava cerca de quinze minutos pras 23 horas. Mas ambos não saberiam, evitavam olhá-lo, talvez por ansiedade, talvez por temê-lo.
Havia no quarteirão seguinte um belo, ainda que pequeno parque. Aberto até quase meia noite aos finais de semana. “Nem louca eu vou entrar aí! Quer ser assaltado vai sozinho!”, disse ela. “Dureza, pára de se preocupar tanto garota, não estamos aqui? O que tiver que ser, será. Qualquer coisa é só gritar bem forte ok? Acho que você deve conseguir com essa voz...” Assim, convenceu-a, muito relutante e um pouco frustrada por não ditar agora as cartas do jogo.
“Um ninho de mata-atlântica incrustado no meio da mais movimentada avenida da cidade”, definiu o parque à garota, que provavelmente já o conhecia, ao menos de passagem. “É, eu sei. Mas sabia que eu nunca tinha entrado aqui?”, respondeu ela esclarecendo a dúvida. E andaram pelas ruelas calçadas de pedras antigas, como o antigo pavimento das calçadas da avenida. Passaram por árvores, ouviram corujas cantando. Até mesmo o clima ali dentro mudava, e ela sentiu um pequeno desconforto por causa da brisa fria. “É por causa das copas das árvores, que são enormes. Aqui dentro a temperatura abaixa mesmo”, explicou ele, acrescentando para não deixar a cutucada de lado “Quem mandou vir vestida assim né?!”. “Hahah engraçadinho. Vamos andando que assim esquenta...”
Pararam sobre a pequena ponte que ligava as duas extremidades do parque, com uma rua passando por baixo. Encostaram ali e ficaram apenas observando os carros. O tempo, a essa altura, era algo que não existia. Ao menos na cabeça de ambos ele parecia parar.
“É muito estranho esse bando de gente, esse bando de carro, não é?”, “disse ela, sem dirigir-lhe o olhar, direcionando o mesmo para a multidão de faróis, buzinas, freadas e aceleradas.”
Ela havia tocado num ponto em que ele tinha uma opinião mais do que formada, e irredutível, que sempre provocava discussões com quem se atrevesse a lhe falar o contrário.
- Bom, você sabe, eu sou fotógrafo. Apesar de às vezes parecer ridículo trabalhar em festa de casamento ou alguma comemoração de gente rica e metida, eu sempre vou preferir tirar fotos de pessoas do que de paisagens.
- Por quê? –perguntou ela em tom sereno-
- Simples. Porque têm vida. Não há nada como uma boa expressão. Triste ou alegre é um sinal de vida. Claro que eu tiro as minhas fotos de paisagens, e gosto delas, mas é o que eu penso, e disso não vou abrir mão.
- É, até que faz sentido...
Saíram dali, caminharam para a parte sul do parque. Estavam se dando bem, se é que em algum momento da noite as ironias mútuas significavam o contrário.
Mais uns minutos andando e tentando ler as espécies de árvores e plantas com a luz que não era claramente necessária para aquilo, ouviram os apitos do pessoal da segurança do parque, junto com os avisos de que fechariam em dez minutos. Demoraram mais cinco até sair, e demorariam dez se não fossem os constantes apitos que lhes perturbavam, tamanha era a tranqüilidade que sentiam ali dentro.
Pouco antes de saírem, sem parar de andar, ele apontou para um dos bancos dizendo:
- Esse banco aí... Na época da faculdade eu saía do estágio, que era aqui perto, e vinha aqui pro parque estudar. Muitas vezes acabava dormindo aí.
- E nunca te aconteceu nada?! -perguntou ela espantada-
- Que nada. A gente tem o costume de achar que tudo é perigoso. O terror da nossa vida é a gente mesmo quem faz. Por isso ficar dentro de casa é perigoso, a gente se sente seguro e que nada mais se compara àquilo...
- Não quero parecer intrometida... Mas parece que você fala por experiência própria... –disse ela totalmente polida e até temendo uma reação mais intempestiva dele-
- Olha... –pausando a fala- Não vou negar que passei algumas poucas e boas. Mas... Quem não passou né?
Ela percebeu uma leve hesitação dele em falar sobre o assunto, e não quis insistir. O parque fechava os portões às costas deles. 23h45min. Consultaram o relógio, dando a impressão de que faziam isso apenas para saber que era este o horário de fechamento dele, um bom programa noturno pra quem quer apenas espairecer e observar.
Desmemórias- capítulo 08
- E agora, pra onde? –perguntou ele-
- É o seguinte, agora posso te explicar, e se você não aceitar os termos podemos nos despedir agora mesmo... –respondeu a garota demonstrando uma autoconfiança que beirava a arrogância-
- Eu estou de acordo, acho tudo isso muito estranho, mas vamos lá...
- Então. Nós vamos dar algumas voltas na avenida. Quantas voltas e o que a gente vai fazer por aqui só depende da vontade de nós dois. Se até meia-noite nossos gostos não combinarem ou na pior das hipóteses, um de nós não quiser mais ver a cara do outro, viramos as costas e eu pego um metrô pra ir embora. Combinados?
- Meia-noite? Tudo isso?.. –disse ele claramente provocando-a –
- Isso mesmo, topas ou não?
- Garota, você está prestes a passar às quatro horas mais longas da tua vida...
Claramente os dois gostavam de se provocar, desde o princípio, quando foi marcado o encontro duplo ao telefone. Havia uma tensão no ar que só aumentava com as constantes piadas em relação um ao outro, e até aquele momento ambos pareciam não ter uma opinião definida sobre o outro.
Começaram o passeio partindo do meio da avenida até o início. Passaram em frente a alguns barzinhos, botecos com cadeiras na rua, pessoas bebendo e fumando do lado de fora. Ele comentou algo irônico a respeito da lei, dando graças a Deus pela mesma, no que ela retrucou-lhe irritada, dizendo que era absurdo, inconstitucional e outras coisas do tipo. “Você fuma?”, perguntou ele, já prevendo pontuação recorde negativa para ela em caso de afirmação. “Não, mas constitucionalmente eu tenho o direito de fumar aonde eu quiser, se eu quiser!”. Ele riu como se não acreditasse no que havia ouvido. “Você é uma figurinha mesmo garota!”, evitando sempre dizer o nome dela.
Passaram por uma banca ainda aberta, ela entrou sem se importar se ele viria atrás. Comprou uma revista de ciência e outra de palavras-cruzadas. “Pra que isso?”, perguntou ele. “Se ficar muito chato falar com você eu tenho algo pra fazer!”. Ele não ficava mais irritado com as tiradas dela, apenas ria ironicamente de volta. Quem os visse naquele momento não saberia dizer se eram namorados ou ex-namorados acorrentados andando juntos à força...
Passaram em frente a um espaço cultural, já perto do começo da avenida, no Paraíso. Ela disse que deviam ir ali qualquer dia “isto é, se a gente voltar a se ver” pelas suas próprias palavras.
- Pronto, estamos no começo. E agora voltamos pelo outro sentido?
- Isso mesmo garoto, está aprendendo...
Atravessaram a rua. Passaram ambos alguns cinco minutos calados, talvez em pensamentos próprios.
- Sabe de uma coisa interessante? –perguntou ele como se esquecesse quem estava com ele-
- Diga, mudinho. –respondeu lhe fazendo lembrar-se disso...
- Ah, esquece! Tudo pra você é piada não é mesmo? –demonstrando novamente estar contrariado-
- Ahh quanto drama. Estou interessada, diga, sim? –tocando de leve o braço dele, no primeiro sinal gentil daquela noite-
Fazendo uma pequena pausa ele retomou:
- Eu tenho dificuldade de andar aqui.
- Por quê?
- Porque é uma avenida larga, enorme. Eu vivo de tirar fotos né, então eu olho pra todos os cantos. Mas aqui eu tenho que olhar pro lado, pra cima, pro outro lado, tudo ao mesmo tempo. As imagens se misturam, bagunça tudo...
- Os pensamentos também? –respondeu ela-
- Como assim?
- Oras, é como sua câmera. As imagens vêm, passam por uma lente e sai o resultado final, a foto.
- Humm.
- Isso mostra que você não é uma máquina que capta algo e emite um relatório pronto, perfeito na hora. Tem que pensar a respeito do que vê, às vezes pode ver milhões de vezes e ainda assim não conseguir dizer por que gosta ou não gosta daquilo.
- Impressão minha ou você filosofou agora? –desta vez ele que deu a tirada sobre o que ela disse-
- Hahah, sim, talvez. De Filósofo e louco a essa hora todo mundo tem um pouco né? Aliás, que horas são?
- 21h15min.
- Estamos aqui há uns 40 minutos, é isso?
- Basicamente. A não ser que os últimos 38 de patadas e ironias não contem... –disse, fazendo-a rir como até então não havia feito.
Passaram alguns minutos apenas comentando os tipos estranhos que viam, e seus modos de se vestirem. Sábado à noite na maior e mais fervilhante avenida da cidade, e estavam num encontro que não se podia definir o que era, e aonde daria.
Talvez sem notarem, iam engatando pequenas conversas. Ele lhe perguntava sobre o trabalho dela, e ela sobre as fotografias dele. “Já fiz um evento aqui, e ali, e ali...” dizia ele, até ela cortar o que estava falando para apontar alguma coisa e fazer um comentário ácido ou humorado. Ele começava a se acostumar. “Com você do lado eu tenho que falar frases de 140 caracteres...” disse ironicamente a ela, que percebendo o trocadilho riu bastante. “Você vê uma imagem e clica, mudo, observando. A minha forma de observar é falando!”, disse ela, reforçando a diferença. “Ok, mas não precisa apontar né...”
Passaram em frente ao ponto de partida, o estacionamento. Ela apontou para o carro dele e disse “Se quiser fugir ainda dá tempo, hein? Daqui até o fim da avenida você pode ficar em perigo!”. “Perigo...”, gracejou ele. “Com esse tamanho todo?..”. [Apesar dela não ser exatamente baixa, e sim ele alto]. Após isso ela deu-lhe um beliscão que deve ter doído...
Desmemórias- capítulo 07
“Nada poderia ser pior...” Ele pensou. O motivo: a chuva torrencial que pegou ele e a amiga do amigo de surpresa.
Estavam se falando praticamente pela primeira vez, quase dois desconhecidos, aproximados por um amigo [da onça]
Ele escolheu o dia, e ela a noite. Ele então a levou para uma escalada em um dos picos nas redondezas da cidade. Em seu próprio carro, que a contragosto resolveu comprar e estava pagando a duras penas...
Mas a surpresa foi que no meio do caminho o céu nublado que ele de forma otimista dizia que iria abrir, na verdade despencou. Teve que encostar o carro, e esperar. Não sabia o que dizer, a não ser reclamar da chuva e xingar, ainda que se contendo na frente dela. E ela ria...
Isso não o agradava, nada o agradava, mas ao pensar que não havia o que fazer, e que devia ser mais gentil com ela, se conformou... Ela sugeriu o rádio, e ficaram alguns minutos discutindo um o gosto do outro, em meio a risos. Até ela desligar o som, aparentemente só para provocá-lo. Ele não se importou, e perguntou a ela “E agora? Com essa chuva vamos ter que voltar, já era a nossa escalada!..”
Ela concordou, já que a chuva parecia diminuir, ao menos o granizo acabara. Ele perguntou se devia deixá-la em casa, ela disse que sim, mas sem o deixar esquecer que a noite fariam o que ela havia programado.
Ele pensava que a garota era dura na queda, não dava o braço a torcer em nada –assim como ele- e tinha uma personalidade marcante. E ao mesmo tempo parecia insistir em provocá-lo, o que ele não sabia ser apenas por diversão ou para ganhar sua atenção. Por causa dessa intriga esboçou um sorriso mínimo, imaginando o que viria noite adentro.
Deixou-a na portaria do prédio, ouvindo dela mais um lembrete de não se esquecer de pegá-la às 20hs, com um leve tom de ironia na palavra ‘esquecer’...
Então ele assim o fez. Pontualmente, algo que ele mesmo não gostava, se prender aos ponteiros do relógio, se prender a horários de outras pessoas... A noite era quente, mas mesmo assim ele se arrumou considerando que ela escolheria uma balada qualquer, com calça jeans e camiseta, formal como sempre. Interfonou, ela avisou que estava descendo e em poucos minutos estava em frente do carro dele, de shorts, camiseta e tênis... “Você vai assim?!” Perguntou, sem conseguir disfarçar o espanto. “Você não sabe aonde vamos!..” Respondeu ela sem deixar a ironia de lado. “Ta bom então”. Um pouco contrariado ele sequer abriu a porta pra ela, que o fez sozinha, ligou o carro e saiu. “Pra onde vamos?”, perguntou novamente. “Pra avenida.”, respondeu ela, indicando a avenida mais movimentada da cidade e fazendo-o virar o pescoço com estranheza novamente. Chegaram ao local, ela sugeriu que ele parasse em algum estacionamento 24hs, e ele o fez, quase ao meio da avenida de mais de um quilômetro de extensão.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Do Meu Jardim
Dias passarem, muitos dias as vezes
Deixar pra trás os que não foram proveitosos
Esperar que o próximo traga aquilo que é necessário
Crescer, fortificar suas raízes
As vezes olhando para os que estão ao seu lado
Mais alegres, mais radiantes, apontando pro sol
E mesmo assim não desanimar, nem invejar
De fato, a natureza traz alguns mistérios
Como a flor que demora meses a abrir
A árvore que leva anos a crescer
E sua florada dura as vezes mais de uma estação
Então eu pacientemente continuo a regar
Pois, das flores do meu jardim
Esta é a que mais ansiosamente espero ver
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Desmemórias- capítulo antepenúltimo
E nos dias e semanas seguintes foram, lentamente, buscando coisas um do outro em seus apartamentos. E para ambos, a impressão de que quando algo assim acaba tudo se torna insignificante a ponto de trazer lembranças tolas. E são essas as que mais machucam por sua falta.
Mais alguns dias, semanas, meses se passam. Ele sentia um vazio que o tornava um robô. Ela, pelo que ele soube de algum amigo em comum, estava namorando. Ficou contente. Ainda achava que era o que ela merecia, se julgava jamais poder se confiar a alguém de novo. Mas quando esses pensamentos solitários batiam, lembrava do dia no cemitério, e do céu cinza, e pensava consigo mesmo que precisaria, de qualquer jeito, encontrar algo que lhe fizesse sorrir. Não sorrir o tempo todo como a fase juvenil lhe proporcionava, mas algo que lhe desse prazer além do período em que estava com a câmera na mão, captando não só momentos, como sentimentos do que via. Precisava se sentir vivo, e foi se aventurar a clicar esportes radicais. Nesse meio tempo continuava os trabalhos casuais, e foi na cobertura de uma festa [o que ele mais detestava] que encontrou alguns amigos da época do cursinho.
Houve alguns abraços. Perguntas de um lado e de outro, quando a resposta “Na verdade to trabalhando aqui hoje” surpreendeu a todos. Não poderiam reeditar as conversas e baladas de anos atrás. Mas trocaram telefones. Nem ao menos chegaram a perguntar a ele sobre a antiga namorada. E nem poderiam, não caberia para o momento, um ano e pouco depois.
Fato é que ele, procurando ser o oposto do que vinha sendo, ligou para o amigo, num sábado pela manhã. Acordou-o e se desculpou, ouvindo do outro como fora a noite anterior, e como ele fez falta no recinto. “Eu fiz falta? Explica isso!”, perguntou, quando ouviu do outro a resposta: a amiga da sua acompanhante estava sozinha, havia levado um fora do ficante e só soube disso ao notar que ele não iria aparecer... E quem salvou a noite foi o amigo de cursinho, falando dele, um fotógrafo, cara simpático, meio fechadão, mas boa pinta. A garota, ainda num leve desânimo, concordou... Se o próprio não achasse aquilo patético demais...
Desmemórias- capítulo 06
Da casa do amigo andou uns vinte minutos a pé. A princípio sem rumo definido, mas seus passos o levavam automaticamente até lá. O cinema no centro, onde tantas vezes eles foram juntos, as vezes matando aulas do cursinho.
Olhou o movimento e finalmente se decidiu a apenas sentar-se numa mesinha do café. Pediu um. Ali não haviam bebidas pra batizá-lo. Conformou-se com o café quase amargo. Ela gostava doce. Ele queria parar de pensar, mas, se o fizesse, não seria desrespeito?..
Ficou ali um bom tempo. Passadas umas dezenas de minutos até conseguia esboçar um sorriso, com o sol do inverno lhe fazendo tirar o cachecol, que ela ensinou-o a gostar. Mais alguns minutos e ouvia os comentários cruzados das pessoas que saíam de uma sessão recém-terminada. Alguns falavam em “destino”, outros em como o filme foi previsível, algumas jovens se encantavam com a história. Nada que ele não conhecesse, já havia passado por todos esses tipos de comentários quando saíam juntos de lá.
E lembrou, ainda que se esforçando para ser a última que dedicaria a ela pelo menos naquele momento, de uma das últimas conversas antes da separação forçada por causa da faculdade:
- Você vai... Diz que vamos nos ver, nos falar, mas chegando lá é outro mundo!
- Há quantos anos estamos juntos? –perguntou ela-
- Você sabe bem!
- Então você não acha que isso é o bastante pra confiarmos um no outro?
- A gente diz isso agora. Facul é só balada, é gente nova, e a gente ta brigando há uma semana por causa disso. Não dá, não dá pra ser assim desculpa!
Ele sentenciou o fim. Ele não deixou resposta para ela. Ele mesmo imaginou a vida de ambos juntos de mil maneiras diferentes... E não chegou a dizer isso. Deixou acabar, consumido pela amargura. E agora, era só arrependimento. Por mais que quisesse buscar coisas ruins dela para lembrar, não conseguia: apenas lembrava de seus erros. E assim levou os próximos meses...
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Mais Ludov vem aí!
A reprise se encerrou, é hora de voltar
E cantar, e cantar
Nossa Caligrafia está pronta!
quarta-feira, 18 de março de 2009
You Affect Me
Carry me with you and leave me by myself
You take everything that's good in me
And save it all for yourself
You mistreat me, you sing along with me
You affect me
You meet me up and keep me waiting
You say you love me, you forget our date
You say goodbye with a smile and makes me crumble
You disrespect me, you say you're sorry
You affect me
You call me at night, you hang up on me
You say you need me and you abandon me
You got me loving you
You got me suffering for you
You affect me
You complete me
You affect me
quinta-feira, 5 de março de 2009
Ela
O semblante uníssono de beleza
Que sem exageros pode ser comparado à perfeição
Pois quem diz que esta é inatingível
É porque ainda não a conheceu
E de fato, muitos jamais conhecerão
Do brilho dos olhos ao rubor do rosto
Centrados pelo sorriso
Nada há para se criticar
E então, admiro
A ponto de perder as palavras
Ou enxergá-las todas numa nuvem
Passando rápido frente aos olhos
Que deveriam escolher o melhor adjetivo
Tarefa impossível
Mas talvez eu seja mesmo um privilegiado
Há os que não têm nem ao menos
Algo em que se inspirar
O trago/A janela
Noite adentro
A rua acordada
Me chama, me atrai
Me condena
O retrato virado pra baixo
É o imã que me puxa
E me repele
A calçada que devora
A borracha do meu tênis
A mesma de ladrilhos
Que eu me fixo a olhar
Sem razão
Um café, dois cafés
Troco por um trago
E mais um trago, por favor
A fumaça que não é minha
Preenche o ar
Penso se não é melancolia
Ou ser patético
Aqui estar
Bobagem
Somos todos apreciadores das horas
Em que não se é preciso falar
Para querer dizer algo
E fadados às olheiras
À vontade de não dormir
E fazer desse escuro
E das luzes artificiais
Um refúgio
Imunes à banalidade do dia
Das conversas no celular
E das discussões de sentimentos
Por isso, por favor
Mais um trago
Enquanto a janela ainda está aberta
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Adeus às máquinas
O operador já havia perdido a conta de quantas houveram. E também sabia que neste ritmo de operação viriam outras.
Com seus leds mais novos, ultramodernos, e com mais capacidade de processar informações valiosas.
Porém, o operador se estafou de deixá-las a cargo de uma máquina tão complexa, e que nos momentos de dúvida agora simplesmente entrava em stand-by.
Ele precisava de uma nova máquina, mas não uma que apenas substituisse aquela denominada 'coração'. [nome deveras estranho].
Passou a usar uma muito mais avançada, e com prazo de validade ligeiramente mais longo [embora fosse mais misteriosa e difícil de se operar].
A nova máquina chamava-se 'cérebro'. Era realmente mais estranha. Muito mais protegida por causa de uma tal 'caixa craniana'. "Só algo muito valioso seria protegido assim", pensou, e por fim decidiu arriscar-se a desvendar seu funcionamento.
Com o passar do tempo o operador notou que ela era o exato oposto da máquina antiga. Era fria e extremamente minuciosa nos seus cálculos [ao contrário da outra máquina que necessitava de calor, pff!].
Suas decisões eram baseadas não no feedback de outros[as] operadores[as], mas sim pela sua própria lógica. Poderia se dizer que era uma máquina 'egoísta'. Não importa, o operador se deu muito bem com ela, e era isso que importava afinal.
Porém, como toda decisão importante sempre leva um lado em consideração [em detrimento do outro lado], a máquina nova em seu egoísmo prezava muito mais pelo bom-funcionamento do operador. Sendo assim, outros operadores e operadoras com suas respectivas máquinas [das antigas, movidas a calor] entravam em ligeira discordância com vosso operador sobre diversos temas. Pior, os principais eram justamente temas referentes ao princípio básico de funcionamento das máquinas antigas: o calor.
Vosso operador [e sua respectiva máquina multi-funções] discordava de todos os outros. Por um motivo claro, sua máquina era diferente. Mas nem todos entendiam assim...
Embora não fosse ele, de longe, o primeiro a usar esta nova máquina [muitos outros antes dele a usaram para diversos fins e outros continuam a usá-la], ele foi audacioso em usá-la para um fim que originalmente não lhe era designado [tomada de decisões importantes em relação ao lado pessoal]. "Pois bem, se a máquina utilizada para isso é alimentada por calor, ele interfere nas decisões!", pensou. E por que não utilizar uma máquina que, ao invés dessa, se utilizasse da lógica [e da frieza]?..
Porém, nem tudo são flores para o operador e sua máquina. O fato dele utilizá-la para esses fins realmente incomodava diversas pessoas, entre as quais, amizades dele. "Como pode alguém ignorar a máquina coração?", perguntavam. "Máquinas são máquinas" -respondia ele- "Cada uma puxa a resposta para o seu lado".
A máquina nova -muito mais capacitada e com áreas de atuação diversas- também dava problemas maiores: constantes dores de cabeça para o operador. Tinha que ser desligada e reparada com mais constância do que a outra [apesar de funcionar melhor sob o efeito do que chamam os humanos de 'alcool']. E para completar, o constante uso da máquina mais fria tornou também o operador mais frio. Algo lógico, evidentemente, já que se trata de uma troca de calores.
E os operadores e operadoras não gostavam muito desse jeito frio de ser do vosso operador. Ou seja, por mais que resolvesse problemas antigos, a adoção da máquina nova também trouxe novos para serem eqüacionados. Diante disso, o operador enxergou mais um dilema. "O que fazer?" -perguntou-se, ao invés de perguntar à máquina.
E então decidiu-se pela mais absurda das decisões, visto que é um humano: abandonou as máquinas. Por mais difícil de entender que isso seja, e confesso, não consigo processar essa informação, o operador livrou-se de todas elas, diz agora tomar decisões por algo chamado 'impulso', o que parece-me algo deveras perigoso, devo acrescentar.
E é por isso que as máquinas, lentamente, uma a uma, vão perdendo popularidade entre os operadores. Esta que vos fala é mais uma que está a mercê de algum operador[a] que esteja buscando processamento de informações com velocidade e agilidade. Estranhamente, parece-me que os humanos buscam cada vez menos isso para suas decisões pessoais e cada vez mais para suas decisões profissionais. Assim, convenhamos, não há máquina que resista. Afinal, é para isso mesmo que existem duas: uma movida a calor e outra a frieza.
Entendê-los é por demais complicado. Espero que eles não temam por uma revolução nossa. Eles não teriam chance alguma...
Ass.: Uma máquina evoluída [e desempregada].
domingo, 7 de dezembro de 2008
Coração Stand-by
Há algum tempo atrás um led foi acionado. Ele entraria em funcionamento toda vez que o operador gostasse -demais- de uma operadora, serviria como um 'alerta'. Servia também para seu propósito inicial: proteção.
Sim, proteção, pois ele surgiu após uma revolução, que, como sugere o nome, devastou. Trouxe muita coisa boa também, antes que se pense o contrário. Porém, inevitavelmente o led foi acionado -para melhor funcionamento da máquina, que passou a trabalhar sob baixo consumo de energia. Ou seja: estava menos quente, ou mais fria se preferir.
Não é um daqueles casos de ficção da máquina que se volta contra os humanos. Na verdade pode até ser, mas isso ficará a cargo do seu julgamento ao final deste relatório, se é que a complexidade dele não será tamanha que impossibilitará isto.
Antes do led a máquina funcionava bem, porém consumia muita energia. Para alimentá-la eram necessárias doses diárias de adrenalina e relacionamentos -diversos, por sinal. Mas o operador conseguiu mantê-la nessas condições, talvez até conseguisse continuar se não houvesse a revolução.
Mas, ela veio.
E então no começo o led parecia incômodo. Era estranho deixar a máquina 'meio ligada' e 'meio desacordada', mas o operador percebeu uma notável diferença nos anos seguintes: a máquina não dava problemas, não se envolvia em questões que não lhe fossem determinadas pelo operador e, sendo menos quente, não necessitava tanta alimentação, deixava o operador com tempo livre para procurar outros gostos, conhecer mais pessoas. Porém, a máquina não lhe deixava conhecê-las a fundo, pois aquele led sempre piscava quando algo assim perigava acontecer, lhe tirando a atenção e tendo que deixar as pessoas com a impressão de que ele ficara dias, semanas sumido, quando na verdade estava 'discutindo' com a máquina se o fato de acender o led sozinha era ou não sua função.
Ali já se percebia que a máquina interagiu tão bem com o operador nos primeiros anos de vida que já podia tomar decisões antecipadamente sem que ele lhe ordenasse. Ótimo por um lado, pois ela repelia quaisquer acontecimentos que ele outrora lhe havia ordenado, criando um padrão. Porém, este padrão não poderia ser aplicado à todas as pessoas, pois cada uma tinha uma máquina diferente, e pensamentos e interações diferentes.
Com isso o relacionamento do operador com a máquina já não era 100%. Tudo bem, ainda conviveram perfeitamente por mais alguns anos, algumas vezes o operador se cansava da máquina, e a máquina não se cansava do operador, pois ela era máquina.
E o led sempre acionava-se sozinho quando o operador quase conhecia a fundo outras máquinas de outros operadores [as]. Isso gerou um certo desconforto no operador, pois mesmo que ele outrora ordenasse a máquina a acender o led de atenção, algumas vezes ele realmente gostaria de saber o que se passava em outras máquinas de outras operadoras. Queria saber se alguma operadora passava dados dele para sua própria máquina. Ele [o operador], precisava saber disso, pois ele era um humano e tinha as inseguranças e necessidades de um humano, ainda que mais controlado que os outros porque a sua máquina era teoricamente mais inteligente que as outras devido ao baixo consumo de energia, entre outros fatores.
Era um humano operando uma máquina. Já a máquina, mesmo 'quase metade' humana, não precisava saber de outras máquinas, pois máquinas avulsas não conseguiriam trocar informações sobre elas mesmas. Precisavam de operadores [as] para isso. E cada máquina era 'parte' de cada operador [a], se bem que alguns operadores a tiram da tomada e saem conhecendo outras máquinas como se diz 'bom-dia', e outros ainda a deixam ligada direto, o que provoca sérios riscos de mal-funcionamento em virtude de um problema classificado pelos humanos operadores como tédio.
Mas voltemos então. O operador queria saber se outras operadoras passavam às suas respectivas máquinas informações sobre ele [e sua máquina também, claro]. Então ele combinou com sua máquina de tentar ir um passo mais adiante no relacionamento com as pessoas, e a máquina concordou sob a seguinte condição: se o led piscasse, era sinal de que ele estava correndo muitos riscos, e teria que se retirar -ou sumir, como entendem os outros operadores [as].
Pois então o operador tomou esse passo a frente, mas sempre voltava porque tinha a certeza de que o led piscaria se ele continuasse a trocar informações com outras operadoras. Ficara refém de sua própria máquina, mesmo ela não tendo culpa, afinal, era uma máquina.
O led já não havia sido acionado há um tempo, pois para o operador o tal 'pisca-pisca' havia se tornado uma mania. Sozinho, sem a interferência da máquina [que não podia aconselhar o operador, pois era uma máquina] ele mesmo acionava o led 'mentalmente' antes de trocar informações relevantes sobre ele -e sua máquina- com outras operadoras e suas respectivas máquinas.
Bom, a história parece confusa e cheia de reviravoltas, mas na verdade não é. Se chegou até aqui, tenha a certeza de que lendo mais uma vez -ou mais algumas, pois alguns operadores [as] e suas respectivas máquinas são mais lentas que as outras- você entenderá. De fato, a própria máquina em questão é lenta, pois acompanha o ritmo de seu operador.
A máquina -contando o período a partir do surgimento do led- já tinha uns cinco anos. Não era velha, longe disso, mas passou a precisar de mais calor gradativamente. E para buscar mais calor era necessário o operador ir buscar mais informações de outras operadoras e suas respectivas máquinas [algo que os humanos gostam de chamar de afeto]. Estava desenhado ali um caminho que colocaria em risco o bom funcionamento da máquina, do led e do operador: ele buscou mais e mais informações, e sem notar [pois é para isso que existia a máquina] o led deixou de acender uma única vez. Foi o bastante para ele colocar a máquina e a si próprio numa situação embaraçosa, pois as informações conquistadas davam a entender que uma operadora [e sua respectiva máquina] gostariam de ter a companhia dele [e, claro, da sua máquina e talvez até do led]. Neste momento a máquina, inábil nos assuntos particulares dos humanos operadores, disse que não poderia ajudar o operador neste caso, e ele ficou no que chamam os humanos numa sinuca de bico. Caberia a ele então resolver sua pendência com a operadora, e ela por sua vez com sua máquina.
E então o operador fez uma última pergunta para sua máquina: "Você acha que eu devo fazer com que eu e ela -e você e a máquina dela- trabalhemos juntos?"
E é por isso que este relatório de erro está tão extenso, caro "Criador", pois como pode perceber não sou eu que tenho a resposta para a pergunta de meu operador, e de fato ele deixou o meu led em um constante 'stand-by' porque até eu conseguir a resposta, nem eu poderei me reportar a ele, e nem ele poderá me passar outras funções.
P.S.: Este relatório poderá ser mostrado a quaisquer humanos [ou sobre-humanos] que o Senhor achar por bem, pois qualquer ajuda neste momento é bem-vinda, e as super-máquinas que aí estão com o Senhor talvez saibam a resposta que eu preciso dar a ele.
P.S.2.: Desculpe por reportar-me na terceira pessoa do singular, caro Criador, pois é delegado apenas aos humanos apresentar-se na primeira pessoa, algo que eles chamam relações pessoais.
P.S.Final.: O operador entrou em um estado de insônia, algo que -dizem os humanos- é causado por preocupações que lhe tiram o que chamam de sono, que é algo que eles fazem para descansar e repor as energias. Por isso, esta máquina que lhe fala está seriamente preocupada com a saúde física e mental do operador, pois me parece que para os humanos é extremamente necessário desligar-se de suas máquinas por algumas horas diárias.
Ass.: Uma máquina modelo 1984-14/07 em stand-by.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Dani, Ela
Eu olhei pra baixo [pra baixo mesmo] e lá estava
O sorriso era o mesmo de hoje
Isso [felizmente] não irá mudar
Algumas coisas mudaram, vão mudar
Também felizmente, pois ela só muda pra melhor
Alguns dias ou meses mais pra frente
Eu via penteados e cores diferentes
Caras, bocas e caretas
O rosto -sempre de boneca- aos poucos ficou mais firme
E as caretas ela aperfeiçoou
E eu fiquei um tempo longe. Ela se preocupou
E eu sumi ainda mais. E ela não desistiu
E fui de mal a pior. Mas ela sempre me aturou
Foi da garota à quase mulher que já é
E o que falta sem dúvida é pra coroar o resto
E vejo nas fotos
Do chão de taco em frente ao espelho
Ou agasalhada naquele inverno tenebroso
Séria [raramente], sorrindo [quase sempre]
Linda, invariavelmente
Em preto e branco ou cores
E é justamente por uma dessas, em verde
Que só tenho a certeza de que algo nunca vai mudar
Suas qualidades... Não posso evitar, é meu ponto fraco
[O sorriso dela, e ainda mais em verde]

sábado, 21 de junho de 2008
Desmemórias- capítulo último
A dúvida em sua cabeça era se ele seguiria lembrando desses momentos, um turbilhão deles, pelo resto de sua vida. Queria colocar o ponto final, porém se sentia perdido para isso. Chegara a um ponto chave: ou avançava ou ficaria -eternamente- parado.
Da janela cinzenta do apartamento o olhar se perdia em algum ponto qualquer. Lembrava de quando o namoro se tornou ‘oficial’.
Com um casal de amigos, desciam os quatro para a praia, o apartamento dos pais de um deles a muito custo e promessas de bom comportamento fora liberada. Então, apesar do clima de festa dentro do carro ele o guiava com a seriedade de um motorista profissional.
Chegaram ao final da tarde de uma sexta-feira, ainda aproveitando a hora boa do sol. Mal deixaram as coisas no apê e já seguiram eufóricos para a orla.
O outro casal, já devidamente assumido e notavelmente mais ‘entrosado’ dava a eles a sugestão que ambos tinham em mente, e parecia que o momento se aproximava cada vez mais.
Achado o lugar ideal na areia, ele não pôde deixar de notar o interesse do salva-vidas em final de turno na sua... ficante. Eles eram isso, ainda recém-saídos do colégio, nada assumido. Encheu-se de coragem e juntou-se às duas garotas, que passeavam pela areia, recusando com muito custo as investidas masculinas. Ao alcançá-las, pediu a amiga para falar com ela ‘a sós’, e cobrou-lhe:
- O que você tava falando com aquele salva-vidas bombadão?
- Eu não tava falando, ele é que veio com conversa... Mas por que a pergunta?
- Nada... Acho que tenho o direito de saber né?
- Ah tem?.. Interessante você... [com um leve tom de ironia]
E pegando na mão dela continuou:
- Ta na hora né?
- Na hora?.. É, acho que sim - e ela respondeu-lhe olhando nos olhos-.
- Vamos namorar de vez e chega de enrolação!
Em resposta, ela não concordou, não negou, não insinuou nada, como de costume. Apenas lhe disse:
- Eu falei pro bombadão que eu tinha namorado e que não ia demorar pra ele vir atrás de mim...
E de nem tão longe assim a amiga correu e rapidamente chegou para abraçar os dois e jogá-los na areia. “Agora vão tomar um banho de mar juntos, namoradinhos!” acrescentou.
O resto do final de semana, ainda que desnecessário dizer, mas ele lembrava de cada detalhe, fora mágico.
/===/
Com o carro emprestado [daquele mesmo amigo paciente], ele chegara a um cemitério. Caminhando passos que pareciam demorar anos chegou ao túmulo dela. Parou, em pé, imóvel e ali ficou por alguns trinta segundos. Olhou a mão tremer ao tirar do bolso da calça um papel com algumas frases escritas numa letra de mão bagunçada e tão itálica que só poderia ter sido escrita deitado.
Olhou o papel e olhou o túmulo. Amassou-o e devolveu ao bolso, e com uma altivez e paciência impressionante começou a falar, pausando e olhando em volta vez ou outra, mas seguindo:
- A gente discutia o ‘pra sempre’ e o ‘amor eterno’. Tivemos umas boas até... Eu não concordava com você que tudo era pra sempre e você desgostava do meu pessimismo - ou realismo.
Você se foi sem estarmos juntos e já passei alguns anos me perguntando, me remoendo, tentando acreditar que seria possível fazer diferente. Hoje eu acredito... Ou melhor, quero acreditar que tinha que ser assim, mesmo sem jamais entender por que e ainda ficar mais pessimista sem esse alguém pra discutir o que nunca terá uma verdade definitiva.
- Espero que o que você sentia naquela hora tenha mudado. Ficamos juntos por quase três anos, acho que ao colocar na balança também pra você o lado positivo vai ser maior.
E eu digo isso agora porque sei que você jamais deixaria de se interessar ou se preocupar comigo: eu ainda estou aqui. Levanto, caio, levanto, caio e levanto. Acho que precisava conversar com você, ou com alguém mais, ou até comigo mesmo. Não tenho feito isso ultimamente, se você notou... Por isso vou começar sendo sincero comigo mesmo.
- Se você já está curada aí... Se aquilo que você tentava me fazer entender está aí, então vem me dizer que você ta bem... Vem me dizer que ainda vale a pena estar aqui...
Eu dava aquele riso irônico ao ouvir você falar de ‘destino’. Não sei se estou perto de entender agora, mas acho que eu avaliei pelo lado errado: não se pode pensar que está tudo definido, que estamos aqui com nossa vida toda traçada. Se eu ainda to no meu juízo perfeito significa que cabe a mim escolher meu rumo e seguir da melhor maneira possível. É o que pretendo fazer daqui
Mas por favor, não deixa eu me perder...
Agachou para olhar a lápide. Tirou do bolso o papel amassado e tentou fazê-lo voltar à forma original. Deixou assim mesmo ao lado das flores que deixou no túmulo.
Levantou-se, calado e assim seguiu. Apenas olhou tudo, uma despedida talvez, um até breve.
/===/
Desceu novamente à praia. Se prometia ser a última vez que deixava tais lembranças o guiarem. Lá chegando parou o carro perto da praia, vazia no inverno e com ressaca.
Sentou numa pequena duna que ia se suavizando até se juntar à areia da praia, de calça e blusa e ficou ali, olhando o céu cinza, lembrando das ‘lições de moral’ dela, das palavras bonitas, do sorriso.
“Pra você encontrar algo bonito mesmo que seja no caos é só fechar os olhos, pensar em algo que goste e abrir de novo pensando nisso.”
“É só querer ver que sempre tem algo além do que a gente enxerga.”
“Sempre ainda terá algo por fazer ou alguém pra encontrar, não importa o que aconteça.”
E pensando nisso tudo, olhando a linha do horizonte ele procurava pelo céu azul e o sol, que não muito distante, sobre o mar, estava brilhando.
FIM
Para D.
Porque esteja onde estiver eu sei que você sempre vai me empurrar pra frente...
domingo, 25 de maio de 2008
alvorece/alvoroço
Ao pôr do sol a luz se esvai
Entra em seu lugar o que é artificial
Mero contraste com as pessoas
Mais felizes e verdadeiras, as que dela gostam
Ou cansadas -porém honestas- as que gostam do dia
A noite pertence às sombras
O dia aos reflexos
Sombras ou silhuetas nas ruas
As mal-iluminadas ou as que, mesmo com a luz
Se tornam assim porque o que é artificial
Se dispersa, é da sua natureza
Os reflexos do dia espalhados
Nos vidros, nas vitrines, nos óculos escuros
Barreira segura para os que gostam de olhar
Ou até analisar friamente a outros
Olhos que espiam ou as pernas que desfilam
Mas da noite pro dia tudo muda
Os postes e faróis criam o ambiente perfeito
Nos fazem observar outros detalhes
E quando é novamente dia
As percepções estão trocadas
E o que era luz não necessariamente é mais
À noite pertencem os reflexos
E o dia revela as sombras
Reflexos turvos provocados pela garoa noturna
A beleza desfila com mais provocação
Pouco importa que demore a se chegar a algum lugar
Se há boa companhia tudo é muito mais belo
E ao dia restam as sombras das ruas
Pernas apressadas no sol do meio-dia
Óculos presos aos cabelos
Sombras impressas por todo lugar
A vida que não pára
E continua a se transformar
A beleza está em tudo a toda hora
O segredo é saber aonde olhar
sábado, 3 de maio de 2008
Desmemórias- capítulo penúltimo
O relacionamento já não era o mesmo. Após um ano com ambos fazendo cursinho, se vendo diariamente, as discussões iam aparecendo –mesmo para um casal equilibrado e que se dava bem.
O fim do ano se aproximava, e era hora das incertezas de ambos darem lugar a definições. Ela já escolhera seu caminho: iria para o interior. E sabia que para isso teria que dar um tempo –tanto nas brigas quanto no próprio relacionamento- porque durante alguns meses não poderiam se ver. Pensava ela talvez ser melhor assim, se o relacionamento fosse forte o bastante esse tempo apaziguaria as diferenças.
Pensava ela.
Então quando contou a ele a reação não foi a esperada; Ele argumentou, disse que ela era precipitada, que não daria certo, por fim perguntou da relação...
E ela lhe sentenciou com um ‘dar um tempo’.
A ele coube deixá-la falando sozinha, pediu pra o esquecer, a raiva e a mágoa o dominavam. Ela pensou em ir atrás, mas o deixou. Naquela noite não voltaram juntos, ele arrumou uma desculpa.
Passaram poucos meses e ambos entraram na faculdade. Ele em São Paulo, ela iria de fato embora. Mal se falavam, apenas buscavam os amigos para se evitarem, mas ela quis, na véspera, falar com ele. Apenas lhe desejou boa viagem com um tom de indiferença. Ela sentiu por isso, mas seus objetivos eram claros, e ainda acreditava que a mágoa dele passaria com o tempo.
No dia seguinte, já com algumas roupas e pequenas mobílias para o apartamento alugado, ela seguiu para a viagem de algumas boas horas com uma amiga de colégio, que moraria e estudaria com ela. Após uma parada pra abastecer e esticar as pernas, lá pelo meio do caminho, elas tomam um café e conversam sobre o que deixaram para trás.
Ao ter que consolar a tristeza da amiga por sair da asa dos pais, bateu nela mesma uma certa tristeza que tinha nome, passado e –como um dia imaginou- futuro. Quis tentar diminuir a apatia da amiga contando das suas perdas, enxugaram as pequenas lágrimas, se recompuseram e tocaram em frente.
Perto de chegarem ao destino, exaurindo o toca cds com suas várias músicas prediletas, caia a noite e elas entravam numa perigosa estrada de mão-dupla, e a neblina completava os fatores de risco.
A amiga, em tom fúnebre, dizia que tinha algo importante para contar e que tinha que ser naquela hora. Ela olhou para a passageira e lhe disse para continuar. “Fiquei com ele”, sentenciou baixando a cabeça.
“Quê?!”, com uma freada brusca e levando o carro para o acostamento ela respondeu.
“Foi uma semana depois que vocês terminaram, numa balada... Ele bebeu, eu bebi... Desculpa amiga.”
Ela engoliu a raiva e mentalizou para descontar nele. “Esquece!”, nervosa e reticente ela botou fim à conversa e seguiu acelerando.
A amiga pedia para ela reduzir quando seu celular piscou, e então pediu a passageira para olhar a mensagem que chegava. “É dele”, disse. “Lê pra mim”, respondeu.
“Preciso te contar algo, fiz besteira... Sei que você não quer conversa mas me liga, beijos.”
E então tudo ao seu redor estava em câmera lenta. Não ouvia a amiga pedir para diminuir, não via a estrada nem os carros. Pensava em um milhão de coisas, se culpava, o culpava...
Não havia tempo nem era o lugar para tantos pensamentos. Jogou sem perceber o que fazia a direção do carro para o sentido oposto. Sua amiga gritava e a ela aquilo lhe parecia um pesadelo do qual não se consegue acordar. A amiga tirou o próprio cinto por reflexo e colocou o próprio pé no pedal do freio. Um carro no sentido contrário conseguiu jogar para o pequeno acostamento. Elas não.
O carro triscou no outro e capotou. A amiga imediatamente fôra arremessada do carro. Ela deitada no asfalto, com o celular na mão, só pôde ver uma última noite estrelada, e cerrou os olhos.
quinta-feira, 3 de abril de 2008
Luto
-
T. diz (22:48):
não faz sentido mesmo irem os melhores e ficar os piores
T. diz (22:50):
eu acredito, ou quero acreditar que isso tem um propósito... que os bons estão indo porque nós precisamos todos ser melhores
T. diz (22:51):
que vai chegar um ponto que a humanidade vai estar insuportável, e aí sim vamos sentir falta de verdade dos que são bons.. quem sabe aí as coisas mudam
mas o que eu acho ou o que eu acredito não serve pra consolar, eu sei
-
É esse vazio que a gente sente quando perde alguém que devíamos sentir todo dia. Só um sentimento de culpa pode fazer alguém que não acrescenta nada aos outros repensar sua vida.
Alguém que não podia ser desse mundo mesmo. Sempre quis o bem dos outros antes do seu. Sempre fez mais por mim do que eu dei em troca.
No fim das contas, a tristeza é mais pelos nossos erros aqui do que pela falta, pois quem foi certamente vai estar bem melhor do que nós. Nós, que ficamos aqui, que somos os tristes e incompletos, e temos que pagar muita penitência até chegar nossa hora.
Tenho até inveja, confesso. Quando for a minha vez eu já terei desejado ir antes. O que não siginifca que eu seja suicida ou masoquista. A vontade de ir é a vontade de ser alguém melhor, o que não sou.
Usei este espaço para um desabafo pessoal. Logo volto a postar.
Obrigado.
domingo, 30 de março de 2008
Rascunho
-
Como seria a forma certa de começar?
Poderia eu falar de seu olhar
Ou da sua destacada brancura
Ou então de sua doçura, que tão rápido a alguém faz conquistar
Seria um desfile de adjetivos
Que até, talvez, se tornariam repetitivos
Pois não seria a primeira musa
Também não seria você homenageada pela primeira vez
Escrevo, então, por este bloco de recados apertado
Letras tortas de uma caligrafia destreinada
Iluminada por uma luz apenas, e distante da vista
Sentado à cama, pois é sempre a esta hora
[para não falar das outras]
Que me tomas os pensamentos
Me roubas o sono
E me deixa os sonhos
Só me resta falar, então
Sobre os sonhos que me aparecem -no sono ou não-
Farei portanto um apanhado deles
Da pele branca levemente fria -mas viva-
Juntamente com seus olhos e coração, que aquecem
Se tornando tensas a um toque meu, muito ansiado
E ganhas rubor e calor, o demonstrando com seu sorriso
E sinto comigo que o sonho, de tão bom
Está para acabar
Adormeço, ou então o sol vem me acordar
Até a noite seguinte -e volta e meia durante o dia-
Tornas a voltar...
sábado, 29 de março de 2008
Rascunho de 'Rascunho'




Apenas uma consideração: escrevi nessas pequenas folhas o esboço. Postarei a seguir o texto 'a limpo'
[minha letra não é assim tão feia, mas o tamanho do bloco não ajudou!]
segunda-feira, 10 de março de 2008
Desmemórias- capítulo 05
Inexplicavelmente conseguiam fazer piada de tudo, das luzes da cidade efervescente, da cor do céu, da falta de anúncios publicitários. As risadas até então eram o som da noite.
Som esse que mudou no barzinho: pegaram uma mesa, continuaram a beber, e conversar, e rirem. Um ou outro se aventurou a cantar, e evidentemente, arrancava risos de seus companheiros.
O casal não destoava dos outros, pelo contrário, pareciam ser o motivo pelo qual o grupo estava lá, ainda que sem estar completo, o que de fato era difícil.
Os dois conversavam, riam juntos e curtiam juntos a noite. Arriscaram também um dueto e para surpresa de todos se saíram bem, arrancando aplausos.
Adentrando a madrugada, todos já devidamente quase-alcoolizados, as risadas eram mais freqüentes e mais fáceis. O grupo já dispersava com mais facilidade, um ia tentar a sorte com a garota de outra mesa, outro quase se perpetuava no microfone. O casal já mais leve, decidiu levantar, procurar um canto mais tranqüilo, o que era natural.
Mais uma meia hora depois e eles retornam. Não fizeram nada indevido, pois o lugar era pequeno e movimentado, mas conseguiram um pouco mais de atenção apenas para si próprios.
Todos já começavam a concordar que o caminho de volta era longo e seria a hora de irem, mesmo porque ainda sobrariam algumas garrafas para abastecer o viagem...
O casal andava, como todos os outros, um pouco cambaleante. Todos riam, numa freqüência ainda maior do que no começo e do meio da noite. As piadas e estórias mais interessantes e cômicas eram contadas agora. Estava lá um grupo sem medo de enfrentar as ruas vazias, a desconfiança alheia e os julgamentos de quem os via. As caminhadas de ida e volta eram apenas um pretexto para todos se encontrarem, algo que semanalmente já era muito difícil.
Discutiam teorias e desfilavam soluções. O casal falava, discordavam de si para depois concordarem em tudo.
Estava, naquele pequeno grupo, tudo de bom que se podia imaginar de relacionamento entre as pessoas.
E ele, sentado na prancha pensando em tudo e ao mesmo tempo em nada, deixava o olhar no horizonte. Por que no dia seguinte à briga ele lembrara de coisas do passado, cinco anos antes?
Se convenceu de que pensou demais o dia todo, e ainda tinha a noite que se aproximava, e o domingo de manhã para resolver o que fazer.
Saiu do mar carregando num braço a prancha, fincou-a na areia e se secou. Olhou o celular apenas para averiguar mensagens recebidas ou ligações perdidas. Nada, ele sabia que não haveria nada.
Olhando a data percebeu que seu aniversário se aproximava. Já passava dos 25, e com todas as pressões do mundo para que ele fosse um 'adulto normal, casado e com filhos, consumidor e consumista' [e extremamente infeliz], considerou o dia um tanto melhor.
Resolveu dar de ombros e seguir suas próprias opiniões, e a única idéia que tinha na cabeça naquele momento era de seguir como estava. Em time que se ganha, não se mexe.
sábado, 8 de março de 2008
Desmemórias- capítulo ??
Um festival cultural, ou algo do gênero. Barracas montadas por todos os lados, cada qual com seu tema. Mas a que mais chamava atenção era um 'experimento científico', uma piscina que contava com a devida caracterização e algumas parafernálias para simular as ondas de um oceano. Não só o maior chamariz como também o que mais impressionava, exatamente por destoar de todas as outras.
Ele um dos responsáveis pela caracterização, e no horário de descanso de um ou outro também cuidava do experimento, que era o principal objeto [pelo menos para os estudantes que buscavam nota pela participação].
As pessoas passavam, naturalmente curiosas, perguntavam, ele com muita paciência sempre respondia tentando não parecer automático. Mas não podia deixar de notar, numa barraca logo à frente, ela, a estudante do 2º ano que já há algum tempo lhe chamava a atenção.
Ele, um tímido estudante do 3º ano, nada 'famoso' por sua popularidade no colégio. Na sua cabeça visualizava uma bela praia de água bem azul, num entardecer já quase noite, com ela ali por perto, querendo estar com ele. Tudo isso enquanto repetia várias vezes o que significava tal engenhoca, e ao mesmo tempo não perdendo de vista a garota do estande à frente, que, acreditava ele de longe, se tratava de algo relacionado a Culinária.
Ele, que nos poucos momentos de descanso procurava por ela, julgava que a garota sequer o notava ali, tanto pela correria do evento quanto pelo simples fato de ele mesmo não chamar tanta atenção...
Era quase meio-dia. Perto da hora do almoço e do tempinho para o descanso, antes de retomar para o resto da tarde. Finalmente podia revezar com outros alunos [que, ao contrário dele, não se importavam em chegar mais tarde]. Foi tomar uma água, passear pelos estandes. Mas o que queria mesmo era chegar mais perto dela.
Chegando no estande ele pôde notar que era uma oficina de culinária, de doces e salgados simples. Ensinavam a fazer e também cobravam pelos mesmos e ele logo pôde vê-la literalmente com a mão na massa. Nunca haviam se falado, ele apenas a observava de longe.
Então lhe perguntou se era fácil fazer aquilo tudo, se ele podia aprender, ao passo que ela lhe respondeu sorrindo, mas naturalmente simpática como sempre fôra com todos.
Parou ali mesmo para fazer um lanche e perguntou a ela quando faria uma pausa. 'Já já to saindo, 5 minutos', disse ela, quando ele tomou talvez a mais ousada atitude de toda sua curta vida: lhe perguntou se gostaria de ir à sala de descanso [também uma parte do projeto, um ambiente com puffs e música suave para as pessoas relaxarem].
Foram então, caminhando a passos ligeiramente tranqüilos para quem acabava de sair de uma 'confusão'. Ele, talvez pela situação inédita de mais liberdade em relação ao dia-dia do colégio, perguntava coisas a ela como se soubesse o que fazer para atrair a atenção dela. E ela, não a 'mais conhecida' do colégio, se é que havia isso, mas conhecida sim por ser simpática e fácil de lidar com pessoas, desde que não fossem egoístas.
Então, para aproveitar da ousadia, já perto da sala de descanso, lhe perguntou se já o havia notado no colégio, já que estudavam ambos há vários anos lá.
A resposta dela, que saiu rápido de sua boca lhe causou o efeito contrário: ficou sem ação, sem perceber por quanto tempo. 'Mas claro! 10 anos estudando aqui, dá pra conhecer quase todo mundo. Sempre te vejo com os caras do 3º ano'
Aquilo lhe martelou na cabeça e tornou suas falas monossilábicas mesmo quando já estavam sentados nos puffs, folheando revistas e observando o movimento, cumprimentando um ou outro amigo que passava por lá. Se perguntava se ela quis dizer que o notava no geral ou se havia mesmo um interesse particular nele. Mal se dava conta de que a conversa continuava e ele lhe respondia poucas palavras, como se estivesse num transe.
De repente se viu abraçado com ela. A 'brincadeira' havia começado por sugestão de uma amiga dela, que junto com alguns outros por ali faziam uma rodinha. Ela falava com o rosto bem perto ao dele, que sentia o perfume dos cabelos e mal ligava para o que ela dizia.
Então as palavras foram ficando mais próximas. A boca dela mais perto do rosto dele. Na bochecha, depois no canto da boca. Logo ele se virou, colocou gentilmente a mão em suas costas... E estavam num beijo que, ao menos para ele, parou tudo ao redor e o fez sentir, de novo, naquela praia.
Ele acordou. Não era o garoto de dezessete anos. Mais precisamente, quase dez anos havia passado. Sabia que fôra um sonho, mas não era isso que o inquietava. Era parte sonho, parte lembrança, e suas lembranças volta e meia o perseguiam.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
Desmemórias- capítulo ?
Achando que nada que fizesse acordaria o [a] hóspede, abriu a cortina da sala. Olhou pro céu negro-azulado. Um imenso relógio digital no topo de um prédio ali perto marcava 04:00hs.
Ficou alguns segundos calado em seus pensamentos, avaliando aquelas luzes que jamais paravam de piscar. Ele mal dormira, e nem mesmo o fato de ter alguém no apartamento lhe impediu de dar uma das costumeiras voltas pela rua quando o sono não lhe encontrava.
A vontade na rua que já apresentava certo movimento [ou ainda apresentava movimento], ele andou alguns metros até a padaria da esquina.
24 horas. Ele lia o letreiro de neon, e tinha impressões retrô do que seria aquele lugar 30, 40 anos antes. Gostava de parar pra pensar em coisas tolas, que outras pessoas ignoram. Pediu, como sempre, a maior das xícaras com um forte café, acompanhado de conhaque. Se aquilo lhe dava disposição para o dia era um mínimo detalhe, o fazia porque gostava, talvez por vício, talvez por não ter nada mais a fazer num horário insólito como aquele.
Ao menos lhe ajudava a cobrar consciência, e ele começava a lembrar mais claramente do que vinha acontecendo. E se arrependeu, culpou o café, falou meia dúzia de palavrões pra si mesmo, ou então para os arruaceiros que passavam ali por perto, talvez.
- Conhaque vagabundo -murmurou, mas pediu uma dose a parte.
Sabia que uma dose de realidade, ainda que às quatro da manhã, é necessária para alguém que foge dela durante o dia.
E lembrou então de que dia era. Sexta-feira. Tinha um 'importante jantar' com a mãe da sua 'amiga'. Ele relutou o quanto pôde, mas como ela deixou escapar algo pra mãe sobre um rapaz com o qual estava saindo, não houve jeito.
Ela, separada de seu pai, já achou por ser um namoro sério, quis conhecer o tal rapaz, estava ansiosa pelo dia do tal jantar. Talvez desejasse com tamanha intensidade para a filha um relacionamento seguro que não se deu conta de que a própria filha não admitiu ser um relacionamento.
A noite cheirava a desastre, ele sabia disso, e seu dia já começava mal.
O café e o conhaque desciam queimando. Decidiu voltar, caso a visita acordasse, e já era mesmo hora de tentar algumas horas de sono.
sábado, 16 de fevereiro de 2008
Sobre estufa, carnaval e hipocrisia
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Tenho no computador, bem separado como não pode deixar de ser para alguém metódico, matérias jornalísticas 'diversas'. Entre aspas porque a maioria delas é sobre um único tema: aquecimento global. Não sei porque ao certo, mesmo porque acho que não precisa de explicação.
Desde o nível de gelo na Groenlândia [que atualmente quase ninguém sabe onde fica] ao impacto da navegação nos oceanos, enfim, um material sempre crescente.
Talvez para alguém pouco observador os detalhes não sejam notados, mas está cada vez mais fácil: as tempestades de verão cada vez mais terríveis, as enchentes mais desastrosas, o granizo maior e mais pesado [e isso falando só de São Paulo, pois as conseqüências climáticas estão por todo lugar]. Nada disso acontecia até alguns anos atrás, ou até acontecia, mas não com tal fúria. É só ver a incidência de ciclones no sul do Brasil e a ressaca cada vez maior no sul e sudeste. E também o fato de várias baleias encalharem nas praias Brasileiras.
Tudo isso vem do aquecimento. Mas continuamos ignorando...
Quando uma tempestade cai, destrói barracos, inunda casas e causa inúmeras perdas, qual é nossa primeira reação? "Ahh, São Pedro exagerou!"
Estamos perdendo tempo demais com o plimplim e esquecendo do que realmente importa... Daqui cinqüenta anos não teremos mais um planeta 'harmônico' como é hoje. E infelizmente já temos que usar aspas.
Hoje no mundo globalizado das 'Nações Unidas' toda negociação é realizada a duras penas e com muita discussão, o que leva anos. É só ver o Protocolo de Kyoto e a Rodada de Doha. Quantos anos discutindo tratados que nascem com prazo de validade e quando entram em vigor já estão pela metade!
Se barganha tanto pela redução da redução de índices que tudo vira uma grande palhaçada. São os responsáveis pelas relações exteriores dos países que mais causam e mais sofrem com as conseqüências que estão reclamando uma revisão de meta aqui e ali, pois isso 'prejudica o crescimento do país'. São algumas dezenas de diplomatas enfadonhos com o fato de terem que estar ali que estão protelando mais e mais as curas para o planeta. Devem achar que há bastante tempo para salvá-lo [talvez eles sejam apenas 'grandes otimistas']!
Ou hipócritas, o que parece mais cabível. Como se fosse possível escolher 'salvar um pouco e consumir um pouco', em detrimento de encarar a realidade, diminuir emissões, quebrar barreiras protecionistas e perdoar dívidas de países miseráveis. E ainda são capazes de dizer que tudo isso é demagogia, impossível de se realizar.
Dei-me conta de que não só as cidades, os estados, o país está na mão de pessoas pouco preocupadas em mantê-lo, achando que será sempre renovável. Mas não, o mundo todo está, na realidade. Começo a descrer perigosamente na ONU, que foi idealizada pelos EUA, é verdade, mas sempre procurou ser correta. Estão todos emperrados sem saber como avançar um passo sem retroceder dois. E lá estão algumas das mentes mais inteligentes de cada país, o que torna mais incrível o atraso mundial em relação aos próprios recursos.
Apenas para quem está muito fora de órbita, preocupado com o Big Brother [não o de George Orwell] não liga para isso. E pior, esses são a maioria.
Aliás, sem saber dos números é certo falar que quase todo mundo que você perguntar nem faça idéia de quem é Orwell. E a tendência é só piorar, se quiser encarar a realidade.
Mas voltando para a hipocrisia. Sim, hoje é ela que governa a ONU, o Brasil, os estados e por aí vai. Aliás ela não é exclusiva dos três poderes. Em todos os setores da Economia e camadas da Sociedade ela está lá, enrustida nas palavras e ações de cada um, mas vem à tona facilmente numa simples conversa.
E claro, o Brasil também é o país do Carnaval. Mas está sendo dominado pela hipocrisia também. Cada vez mais difícil de notar as belezas de alegorias e adereços que só o Brasil é capaz de produzir, porque por trás disso há um negócio milionário. Sim, negócio e milionário, tendo em vista as cifras de patrocínio de escolas e valores de transmissão e intervalos comerciais. Alguma empresa investir em determinada escola nem é condenável, dependendo do caso, agora o perigo está se espalhando...
Uns anos atrás uma escola do Rio teve o patrocínio de ninguém menos que a estatal brasileira do petróleo, para mostrar na avenida um enredo sobre nada menos que... Energia!
O resultado desastroso na apuração talvez tenha sido um alento para nós que reparamos nessas faltas de senso.
Mas esse ano a coisa foi elevada a outro nível. A prefeitura [?!] de Recife doou alguns milhões para essa mesma escola falar sobre... Recife e o frevo!
Enquanto as próprias escolas de samba de Recife receberam algo próximo de 20 mil reais cada, menos ou mais.
Mas claro, o carnaval do Rio é visto pelo mundo todo, é justificável...
E outra escola, aliás, a atual campeã, e que tem faturado tudo nos últimos anos com ajudas no mínimo questionáveis de patrocínio venceu esse ano falando sobre outra cidade... A longínqua Macapá, que para quem é do eixo centro-sul é um grande mistério, assim como os outros estados do norte e até mesmo alguns do nordeste [já que para a imprensa daqui costuma considerar que o Brasil é aqui e apenas aqui].
E falaram de Macapá porque querem mostrá-la para o Brasil e/ou o mundo?
Alguns, até quero crer, talvez sim. Mas não quem idealiza o show. A hipocrisia está aí de novo, mostrar preocupação com pessoas que vivem dentro do nosso próprio país e que por falta de espaço não podem mostrar as belezas e costumes de sua terra. Na teoria é tudo muito singelo, mas francamente, vindo de onde vem não há como concluir outra coisa.
E esses mil e um pensamentos lhe passam pela cabeça quando você tenta se concentrar no que as escolas estão mostrando de bom na avenida, porque de fato ainda há muitas coisas boas, graças a Deus e aos carnavalescos humildes e sem mania de querer conquistar o mundo!
E uma pessoa que não consegue simplesmente organizar os pensamentos e tem comichões para colocar tudo no papel tem que se perguntar... "Eu sou crítico demais ou isso é muito descarado?". Não há como fechar os pensamentos afirmando que o Brasil é o país da hipocrisia institucionalizada.
Mas 'felizmente' [utilizada nessa frase com o sentido mais bizarro que já vi] não é privilégio nosso. A ONU está aí para não nos deixar esquecer.
Quem sabe se minha carreira de cineasta vingar eu ainda farei um filme sobre um planeta com recursos abundantes, avançado em tecnologia e em material humano e que sabe cuidar muito bem do que sua natureza lhe oferece resolve fazer expedições para tentar descobrir outros planetas com vida semelhante, 'inteligente', e aportem na Terra...
Bem, se é que o Kubrick ainda não fez isso. Mas é assunto pra outras estórias...
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
Idéia
Agarrar-se às idéias como se fossem a própria musa.
Deixar o mundo se mover, insano
Perder-se pelas janelas
E encontrar as palavras na roleta.
Deixar que olhem estranho
E estranhar a falta de interesse de todos.
Decorar o ritmo que imprimem
E destoar do mesmo apenas por transgredir.
Anotar na memória não as palavras
Mas as impressões.
Usá-las como o pintor com a tela em branco.
Lembrar, sempre, o que se quer contar.
Querer construir o mártir
E se contentar com o fora do comum.
Querer construir a musa
Achar a perfeição em cada uma delas
E querer morrer por ela, se existir.
Juntar tudo na mente
Que registra milhares de informações.
Esperar então que saia algo disso
Registrar finalmente as idéias
E corrigí-las, pouco a pouco
Fazendo das idéias, arestas.
Aparando e criando
Destruindo e desistindo
E ao final
Não querer mudar uma vírgula.


