A janela aberta
Noite adentro
A rua acordada
Me chama, me atrai
Me condena
O retrato virado pra baixo
É o imã que me puxa
E me repele
A calçada que devora
A borracha do meu tênis
A mesma de ladrilhos
Que eu me fixo a olhar
Sem razão
Um café, dois cafés
Troco por um trago
E mais um trago, por favor
A fumaça que não é minha
Preenche o ar
Penso se não é melancolia
Ou ser patético
Aqui estar
Bobagem
Somos todos apreciadores das horas
Em que não se é preciso falar
Para querer dizer algo
E fadados às olheiras
À vontade de não dormir
E fazer desse escuro
E das luzes artificiais
Um refúgio
Imunes à banalidade do dia
Das conversas no celular
E das discussões de sentimentos
Por isso, por favor
Mais um trago
Enquanto a janela ainda está aberta
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quinta-feira, 5 de março de 2009
O trago/A janela
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domingo, 7 de dezembro de 2008
Coração Stand-by
Há bastante tempo atrás havia uma máquina, e um operador. A máquina sempre funcionou bem, e o operador sempre a operou da maneira correta.
Há algum tempo atrás um led foi acionado. Ele entraria em funcionamento toda vez que o operador gostasse -demais- de uma operadora, serviria como um 'alerta'. Servia também para seu propósito inicial: proteção.
Sim, proteção, pois ele surgiu após uma revolução, que, como sugere o nome, devastou. Trouxe muita coisa boa também, antes que se pense o contrário. Porém, inevitavelmente o led foi acionado -para melhor funcionamento da máquina, que passou a trabalhar sob baixo consumo de energia. Ou seja: estava menos quente, ou mais fria se preferir.
Não é um daqueles casos de ficção da máquina que se volta contra os humanos. Na verdade pode até ser, mas isso ficará a cargo do seu julgamento ao final deste relatório, se é que a complexidade dele não será tamanha que impossibilitará isto.
Antes do led a máquina funcionava bem, porém consumia muita energia. Para alimentá-la eram necessárias doses diárias de adrenalina e relacionamentos -diversos, por sinal. Mas o operador conseguiu mantê-la nessas condições, talvez até conseguisse continuar se não houvesse a revolução.
Mas, ela veio.
E então no começo o led parecia incômodo. Era estranho deixar a máquina 'meio ligada' e 'meio desacordada', mas o operador percebeu uma notável diferença nos anos seguintes: a máquina não dava problemas, não se envolvia em questões que não lhe fossem determinadas pelo operador e, sendo menos quente, não necessitava tanta alimentação, deixava o operador com tempo livre para procurar outros gostos, conhecer mais pessoas. Porém, a máquina não lhe deixava conhecê-las a fundo, pois aquele led sempre piscava quando algo assim perigava acontecer, lhe tirando a atenção e tendo que deixar as pessoas com a impressão de que ele ficara dias, semanas sumido, quando na verdade estava 'discutindo' com a máquina se o fato de acender o led sozinha era ou não sua função.
Ali já se percebia que a máquina interagiu tão bem com o operador nos primeiros anos de vida que já podia tomar decisões antecipadamente sem que ele lhe ordenasse. Ótimo por um lado, pois ela repelia quaisquer acontecimentos que ele outrora lhe havia ordenado, criando um padrão. Porém, este padrão não poderia ser aplicado à todas as pessoas, pois cada uma tinha uma máquina diferente, e pensamentos e interações diferentes.
Com isso o relacionamento do operador com a máquina já não era 100%. Tudo bem, ainda conviveram perfeitamente por mais alguns anos, algumas vezes o operador se cansava da máquina, e a máquina não se cansava do operador, pois ela era máquina.
E o led sempre acionava-se sozinho quando o operador quase conhecia a fundo outras máquinas de outros operadores [as]. Isso gerou um certo desconforto no operador, pois mesmo que ele outrora ordenasse a máquina a acender o led de atenção, algumas vezes ele realmente gostaria de saber o que se passava em outras máquinas de outras operadoras. Queria saber se alguma operadora passava dados dele para sua própria máquina. Ele [o operador], precisava saber disso, pois ele era um humano e tinha as inseguranças e necessidades de um humano, ainda que mais controlado que os outros porque a sua máquina era teoricamente mais inteligente que as outras devido ao baixo consumo de energia, entre outros fatores.
Era um humano operando uma máquina. Já a máquina, mesmo 'quase metade' humana, não precisava saber de outras máquinas, pois máquinas avulsas não conseguiriam trocar informações sobre elas mesmas. Precisavam de operadores [as] para isso. E cada máquina era 'parte' de cada operador [a], se bem que alguns operadores a tiram da tomada e saem conhecendo outras máquinas como se diz 'bom-dia', e outros ainda a deixam ligada direto, o que provoca sérios riscos de mal-funcionamento em virtude de um problema classificado pelos humanos operadores como tédio.
Mas voltemos então. O operador queria saber se outras operadoras passavam às suas respectivas máquinas informações sobre ele [e sua máquina também, claro]. Então ele combinou com sua máquina de tentar ir um passo mais adiante no relacionamento com as pessoas, e a máquina concordou sob a seguinte condição: se o led piscasse, era sinal de que ele estava correndo muitos riscos, e teria que se retirar -ou sumir, como entendem os outros operadores [as].
Pois então o operador tomou esse passo a frente, mas sempre voltava porque tinha a certeza de que o led piscaria se ele continuasse a trocar informações com outras operadoras. Ficara refém de sua própria máquina, mesmo ela não tendo culpa, afinal, era uma máquina.
O led já não havia sido acionado há um tempo, pois para o operador o tal 'pisca-pisca' havia se tornado uma mania. Sozinho, sem a interferência da máquina [que não podia aconselhar o operador, pois era uma máquina] ele mesmo acionava o led 'mentalmente' antes de trocar informações relevantes sobre ele -e sua máquina- com outras operadoras e suas respectivas máquinas.
Bom, a história parece confusa e cheia de reviravoltas, mas na verdade não é. Se chegou até aqui, tenha a certeza de que lendo mais uma vez -ou mais algumas, pois alguns operadores [as] e suas respectivas máquinas são mais lentas que as outras- você entenderá. De fato, a própria máquina em questão é lenta, pois acompanha o ritmo de seu operador.
A máquina -contando o período a partir do surgimento do led- já tinha uns cinco anos. Não era velha, longe disso, mas passou a precisar de mais calor gradativamente. E para buscar mais calor era necessário o operador ir buscar mais informações de outras operadoras e suas respectivas máquinas [algo que os humanos gostam de chamar de afeto]. Estava desenhado ali um caminho que colocaria em risco o bom funcionamento da máquina, do led e do operador: ele buscou mais e mais informações, e sem notar [pois é para isso que existia a máquina] o led deixou de acender uma única vez. Foi o bastante para ele colocar a máquina e a si próprio numa situação embaraçosa, pois as informações conquistadas davam a entender que uma operadora [e sua respectiva máquina] gostariam de ter a companhia dele [e, claro, da sua máquina e talvez até do led]. Neste momento a máquina, inábil nos assuntos particulares dos humanos operadores, disse que não poderia ajudar o operador neste caso, e ele ficou no que chamam os humanos numa sinuca de bico. Caberia a ele então resolver sua pendência com a operadora, e ela por sua vez com sua máquina.
E então o operador fez uma última pergunta para sua máquina: "Você acha que eu devo fazer com que eu e ela -e você e a máquina dela- trabalhemos juntos?"
E é por isso que este relatório de erro está tão extenso, caro "Criador", pois como pode perceber não sou eu que tenho a resposta para a pergunta de meu operador, e de fato ele deixou o meu led em um constante 'stand-by' porque até eu conseguir a resposta, nem eu poderei me reportar a ele, e nem ele poderá me passar outras funções.
P.S.: Este relatório poderá ser mostrado a quaisquer humanos [ou sobre-humanos] que o Senhor achar por bem, pois qualquer ajuda neste momento é bem-vinda, e as super-máquinas que aí estão com o Senhor talvez saibam a resposta que eu preciso dar a ele.
P.S.2.: Desculpe por reportar-me na terceira pessoa do singular, caro Criador, pois é delegado apenas aos humanos apresentar-se na primeira pessoa, algo que eles chamam relações pessoais.
P.S.Final.: O operador entrou em um estado de insônia, algo que -dizem os humanos- é causado por preocupações que lhe tiram o que chamam de sono, que é algo que eles fazem para descansar e repor as energias. Por isso, esta máquina que lhe fala está seriamente preocupada com a saúde física e mental do operador, pois me parece que para os humanos é extremamente necessário desligar-se de suas máquinas por algumas horas diárias.
Ass.: Uma máquina modelo 1984-14/07 em stand-by.
Há algum tempo atrás um led foi acionado. Ele entraria em funcionamento toda vez que o operador gostasse -demais- de uma operadora, serviria como um 'alerta'. Servia também para seu propósito inicial: proteção.
Sim, proteção, pois ele surgiu após uma revolução, que, como sugere o nome, devastou. Trouxe muita coisa boa também, antes que se pense o contrário. Porém, inevitavelmente o led foi acionado -para melhor funcionamento da máquina, que passou a trabalhar sob baixo consumo de energia. Ou seja: estava menos quente, ou mais fria se preferir.
Não é um daqueles casos de ficção da máquina que se volta contra os humanos. Na verdade pode até ser, mas isso ficará a cargo do seu julgamento ao final deste relatório, se é que a complexidade dele não será tamanha que impossibilitará isto.
Antes do led a máquina funcionava bem, porém consumia muita energia. Para alimentá-la eram necessárias doses diárias de adrenalina e relacionamentos -diversos, por sinal. Mas o operador conseguiu mantê-la nessas condições, talvez até conseguisse continuar se não houvesse a revolução.
Mas, ela veio.
E então no começo o led parecia incômodo. Era estranho deixar a máquina 'meio ligada' e 'meio desacordada', mas o operador percebeu uma notável diferença nos anos seguintes: a máquina não dava problemas, não se envolvia em questões que não lhe fossem determinadas pelo operador e, sendo menos quente, não necessitava tanta alimentação, deixava o operador com tempo livre para procurar outros gostos, conhecer mais pessoas. Porém, a máquina não lhe deixava conhecê-las a fundo, pois aquele led sempre piscava quando algo assim perigava acontecer, lhe tirando a atenção e tendo que deixar as pessoas com a impressão de que ele ficara dias, semanas sumido, quando na verdade estava 'discutindo' com a máquina se o fato de acender o led sozinha era ou não sua função.
Ali já se percebia que a máquina interagiu tão bem com o operador nos primeiros anos de vida que já podia tomar decisões antecipadamente sem que ele lhe ordenasse. Ótimo por um lado, pois ela repelia quaisquer acontecimentos que ele outrora lhe havia ordenado, criando um padrão. Porém, este padrão não poderia ser aplicado à todas as pessoas, pois cada uma tinha uma máquina diferente, e pensamentos e interações diferentes.
Com isso o relacionamento do operador com a máquina já não era 100%. Tudo bem, ainda conviveram perfeitamente por mais alguns anos, algumas vezes o operador se cansava da máquina, e a máquina não se cansava do operador, pois ela era máquina.
E o led sempre acionava-se sozinho quando o operador quase conhecia a fundo outras máquinas de outros operadores [as]. Isso gerou um certo desconforto no operador, pois mesmo que ele outrora ordenasse a máquina a acender o led de atenção, algumas vezes ele realmente gostaria de saber o que se passava em outras máquinas de outras operadoras. Queria saber se alguma operadora passava dados dele para sua própria máquina. Ele [o operador], precisava saber disso, pois ele era um humano e tinha as inseguranças e necessidades de um humano, ainda que mais controlado que os outros porque a sua máquina era teoricamente mais inteligente que as outras devido ao baixo consumo de energia, entre outros fatores.
Era um humano operando uma máquina. Já a máquina, mesmo 'quase metade' humana, não precisava saber de outras máquinas, pois máquinas avulsas não conseguiriam trocar informações sobre elas mesmas. Precisavam de operadores [as] para isso. E cada máquina era 'parte' de cada operador [a], se bem que alguns operadores a tiram da tomada e saem conhecendo outras máquinas como se diz 'bom-dia', e outros ainda a deixam ligada direto, o que provoca sérios riscos de mal-funcionamento em virtude de um problema classificado pelos humanos operadores como tédio.
Mas voltemos então. O operador queria saber se outras operadoras passavam às suas respectivas máquinas informações sobre ele [e sua máquina também, claro]. Então ele combinou com sua máquina de tentar ir um passo mais adiante no relacionamento com as pessoas, e a máquina concordou sob a seguinte condição: se o led piscasse, era sinal de que ele estava correndo muitos riscos, e teria que se retirar -ou sumir, como entendem os outros operadores [as].
Pois então o operador tomou esse passo a frente, mas sempre voltava porque tinha a certeza de que o led piscaria se ele continuasse a trocar informações com outras operadoras. Ficara refém de sua própria máquina, mesmo ela não tendo culpa, afinal, era uma máquina.
O led já não havia sido acionado há um tempo, pois para o operador o tal 'pisca-pisca' havia se tornado uma mania. Sozinho, sem a interferência da máquina [que não podia aconselhar o operador, pois era uma máquina] ele mesmo acionava o led 'mentalmente' antes de trocar informações relevantes sobre ele -e sua máquina- com outras operadoras e suas respectivas máquinas.
Bom, a história parece confusa e cheia de reviravoltas, mas na verdade não é. Se chegou até aqui, tenha a certeza de que lendo mais uma vez -ou mais algumas, pois alguns operadores [as] e suas respectivas máquinas são mais lentas que as outras- você entenderá. De fato, a própria máquina em questão é lenta, pois acompanha o ritmo de seu operador.
A máquina -contando o período a partir do surgimento do led- já tinha uns cinco anos. Não era velha, longe disso, mas passou a precisar de mais calor gradativamente. E para buscar mais calor era necessário o operador ir buscar mais informações de outras operadoras e suas respectivas máquinas [algo que os humanos gostam de chamar de afeto]. Estava desenhado ali um caminho que colocaria em risco o bom funcionamento da máquina, do led e do operador: ele buscou mais e mais informações, e sem notar [pois é para isso que existia a máquina] o led deixou de acender uma única vez. Foi o bastante para ele colocar a máquina e a si próprio numa situação embaraçosa, pois as informações conquistadas davam a entender que uma operadora [e sua respectiva máquina] gostariam de ter a companhia dele [e, claro, da sua máquina e talvez até do led]. Neste momento a máquina, inábil nos assuntos particulares dos humanos operadores, disse que não poderia ajudar o operador neste caso, e ele ficou no que chamam os humanos numa sinuca de bico. Caberia a ele então resolver sua pendência com a operadora, e ela por sua vez com sua máquina.
E então o operador fez uma última pergunta para sua máquina: "Você acha que eu devo fazer com que eu e ela -e você e a máquina dela- trabalhemos juntos?"
E é por isso que este relatório de erro está tão extenso, caro "Criador", pois como pode perceber não sou eu que tenho a resposta para a pergunta de meu operador, e de fato ele deixou o meu led em um constante 'stand-by' porque até eu conseguir a resposta, nem eu poderei me reportar a ele, e nem ele poderá me passar outras funções.
P.S.: Este relatório poderá ser mostrado a quaisquer humanos [ou sobre-humanos] que o Senhor achar por bem, pois qualquer ajuda neste momento é bem-vinda, e as super-máquinas que aí estão com o Senhor talvez saibam a resposta que eu preciso dar a ele.
P.S.2.: Desculpe por reportar-me na terceira pessoa do singular, caro Criador, pois é delegado apenas aos humanos apresentar-se na primeira pessoa, algo que eles chamam relações pessoais.
P.S.Final.: O operador entrou em um estado de insônia, algo que -dizem os humanos- é causado por preocupações que lhe tiram o que chamam de sono, que é algo que eles fazem para descansar e repor as energias. Por isso, esta máquina que lhe fala está seriamente preocupada com a saúde física e mental do operador, pois me parece que para os humanos é extremamente necessário desligar-se de suas máquinas por algumas horas diárias.
Ass.: Uma máquina modelo 1984-14/07 em stand-by.
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domingo, 25 de maio de 2008
alvorece/alvoroço
Da noite pro dia tudo muda
Ao pôr do sol a luz se esvai
Entra em seu lugar o que é artificial
Mero contraste com as pessoas
Mais felizes e verdadeiras, as que dela gostam
Ou cansadas -porém honestas- as que gostam do dia
A noite pertence às sombras
O dia aos reflexos
Sombras ou silhuetas nas ruas
As mal-iluminadas ou as que, mesmo com a luz
Se tornam assim porque o que é artificial
Se dispersa, é da sua natureza
Os reflexos do dia espalhados
Nos vidros, nas vitrines, nos óculos escuros
Barreira segura para os que gostam de olhar
Ou até analisar friamente a outros
Olhos que espiam ou as pernas que desfilam
Mas da noite pro dia tudo muda
Os postes e faróis criam o ambiente perfeito
Nos fazem observar outros detalhes
E quando é novamente dia
As percepções estão trocadas
E o que era luz não necessariamente é mais
À noite pertencem os reflexos
E o dia revela as sombras
Reflexos turvos provocados pela garoa noturna
A beleza desfila com mais provocação
Pouco importa que demore a se chegar a algum lugar
Se há boa companhia tudo é muito mais belo
E ao dia restam as sombras das ruas
Pernas apressadas no sol do meio-dia
Óculos presos aos cabelos
Sombras impressas por todo lugar
A vida que não pára
E continua a se transformar
A beleza está em tudo a toda hora
O segredo é saber aonde olhar
Ao pôr do sol a luz se esvai
Entra em seu lugar o que é artificial
Mero contraste com as pessoas
Mais felizes e verdadeiras, as que dela gostam
Ou cansadas -porém honestas- as que gostam do dia
A noite pertence às sombras
O dia aos reflexos
Sombras ou silhuetas nas ruas
As mal-iluminadas ou as que, mesmo com a luz
Se tornam assim porque o que é artificial
Se dispersa, é da sua natureza
Os reflexos do dia espalhados
Nos vidros, nas vitrines, nos óculos escuros
Barreira segura para os que gostam de olhar
Ou até analisar friamente a outros
Olhos que espiam ou as pernas que desfilam
Mas da noite pro dia tudo muda
Os postes e faróis criam o ambiente perfeito
Nos fazem observar outros detalhes
E quando é novamente dia
As percepções estão trocadas
E o que era luz não necessariamente é mais
À noite pertencem os reflexos
E o dia revela as sombras
Reflexos turvos provocados pela garoa noturna
A beleza desfila com mais provocação
Pouco importa que demore a se chegar a algum lugar
Se há boa companhia tudo é muito mais belo
E ao dia restam as sombras das ruas
Pernas apressadas no sol do meio-dia
Óculos presos aos cabelos
Sombras impressas por todo lugar
A vida que não pára
E continua a se transformar
A beleza está em tudo a toda hora
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sexta-feira, 14 de setembro de 2007
A madrugada é meu elemento
Hora de silêncio. Enqüanto [quase] todos descansam, só o ruído do computador ligado e das teclas batidas com afinco e calma, ao mesmo tempo.
Na rua o silêncio. A lua se o céu é claro, e se está nublado, não é de todo mal. Nos prédios quase nenhuma luz acesa, e as que persistem certamente pertencem a outros notívagos. Pessoas à parte do normal, transformam a noite em dia e dela aproveitam o máximo, ao custo de algumas horas de sono.
Um mundo paralelo que apenas se desenvolve enquanto a penumbra cobre as ruas. Os que em casa trabalham ou se divertem, os que do lado de fora preferem andar a pé, de preferência acompanhados de boas conversas e bebidas. Apenas o barulho profano de alguns carros e ônibus que insistem em dizer que a madrugada também tem vida.
A vida... Incrivelmente efervescente, abafada pelos clubes fechados de música absurdamente alta ou barzinhos de música ao vivo com pessoas que vivem da e para a madrugada;
Ou então reprimida pelos apelos dos que tentam dormir e se incomodam com o som dos passos e risadas daqueles que passeam pelas ruas. Aqueles que amam ainda mais a madrugada por ser transgressora, comportamental e moralmente horário de dormir, apenas.
Ser dela um amante não é tarefa fácil, e é recomendável aprender desde cedo, o que reforça seu caráter 'transgressor', pois jovens andando pela madrugada, numa mistura comumente de drogas e álcool geralmente não resulta em boas conseqüências. Mas há os que, felizmente, não se deixam levar pelo seu breu acobertante. Aprendem a aproveitá-la, horas escassas que fazem falta no dia seguinte.
É a hora de libertação. Os escravos do horário comercial podem relaxar, beber alguma coisa [a quantidade ou o teor alcóolico depende de cada um], falar palavrões com amigos [não em caráter desrespeitoso, apenas extravasando], andar sem rumo definido, mas principalmente, conversar: é quando cada um pode falar o que quiser, assunto importante ou não, sem se sentir vigiado, avaliado, julgado.
Os que vivem da/para a noite geralmente já estão acostumados com tais acontecimentos, sabem o que esperar de uma noitada e principalmente sabem do que falar. É como uma sociedade, com todas as suas camadas, inteligente e próspera. Os que têm o discernimento de avaliar detalhe por detalhe dos assuntos mais difíceis ou aqueles que não tem tal cultura, mas entendem na pele tudo o que se discute. É uma população aberta ao diálogo, algo que se perde nas horas loucas do dia ensolarado, quando todos querem e são obrigados a se comunicar rápido, a trabalhar rápido, a ser sempre mais rápido que o colega ao lado, depreciando assim as relações pessoais. Os escravos do horário comercial não se conhecem, e a madrugada, ao contrário, proporciona exatamente isso.
Resta aos amantes da madrugada uma vida paralela à normal. Por causa das horas perdidas de sono, geralmente são amantes do café e das bebidas estimulantes, além do álcool. São comumente associados a pessoas que vivem fora da lei [pelo menos a lei que consta no papel], estão acostumados a batidas policiais e chamados de 'apelidos' nada animadores, as vezes visto como vagabundos que nada melhor têm a fazer. Muito pelo contrário, olhando de perto, nesse horário encontraremos algumas das pessoas e idéias mais facinantes, um mundo [pelo menos imaginário] mais próspero e possível de funcionar do que o iluminado pelo sol e regido pelo dinheiro.
Ahh sim, o dinheiro. Necessário dia e noite, como não poderia deixar de ser. Bancos 24 horas que não funcionam depois da meia noite, luminosos alucinantes piscando pela cidade, convidando os passantes noite adentro [felizmente não há mais luminosos e propaganda na cidade de São Paulo]. Necessário, sim, mas não fundamental. Com qualquer 5 ou 10 reais, juntando moedas entre amigos e guardando apenas o necessário para voltar pra casa, pode-se divertir e encontrar por aí inspiração para conter os bocejos até o dia amanhecer, seja qual for o gosto de cada um.
O único pesar dessa vida é que a outra vida, a que costumam chamar de 'importante', é opressora e não vê com bons olhos aqueles que apreciam a noite. Uma pena, pois essa vitalidade e essas idéias que surgem na madrugada, único horário livre que os escravos podem se dedicar ao que realmente lhes interessa, que movem a sociedade-diurna-capitalista-selvagem;
Tudo o que estes notívagos gostariam, e este singelo narrador endossa, é uma sociedade que não ficasse presa ao relógio e ao céu, escuro ou claro, e sim vivesse desse céu. Parasse por alguns minutos para pensar que nós vivemos do mundo, e não o mundo vive de nós. Nós passaremos, mas o que vamos deixar?..
T. 14/09/2007
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